segunda-feira, novembro 08, 2004

Confissões

Toda a boca que cala a boca desliza até o ponto onde volteios rosados e peças de roupas descansam. Todos os limites das terras de perfumes e gostos diferentes ficam para trás e para frente. A navalha adorna quieta o vermelho das minhas vontades de viver e caminhar com a língua até onde mora sua alma sem silêncio. Faço um corte para demarcar meu discurso. Qualquer promessa foi esquecida nas palmas das mãos e de inquietos dedos que atravessam e descobrem as fronteiras do meu corpo nos corpos. A tentativa de me prender em tuas pernas ou golpear-me com teus apelos foi vã como foram minhas tentativas de te entender porque nos perdemos. Há mais dedos do que podemos contar. Puxei-lhe os fios de onde vêem tuas idéias e fiei uma malha de suor e pêlos pelo chão de céu sem balaustrada. Teus grunhidos misturaram-se aos meus já que nosso calar soa diferente e fogueira. Entumescem-se as palavras e as unhas desenham os mapas de que precisamos. Não há final mas repetimos todo o hino compreensível a nós selvagens enquanto ainda nos exploramos. E sem medo do mar que fizemos retornamos de onde começamos: do fundo das nossas loucuras de olhos pintados de negro. Calo tua boca com corpos.
Por Ernesto Diniz.